5/22/2006

Clarice Lispector

Oi! Estive futucando algumas comunidades do orkut e encontrei um blog interessante, falando sobre algumas experiências meio que místicas de diversos famosos ao longo dos séculos e de algumas de suas idéias marcantes. Me chamou atenção este trecho da Clarice Lispector. Nunca li nenhum trabalho dela, mas achei muito interessante algumas palavras neste trecho que são bem próximas de coisas que temos vivenciado nos encontros da escola, de grande sensibilidade. Quem quiser dar uma olhadinha na fonte, o blog é http://viajeevoe.blogspot.com/
Só olhei o texto do Einstein e da Clarice, depois com mais tempo vou olhar as demais figuras que estão citadas por lá, muito interessante! O comentário inicial é do autor do blog, acredito, não há referência nem autoria marcada. Não sei se está na ordem certa, pois o texto estava dividido em duas páginas diferentes...

"Do livro 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'. Não duvido, pelos escritos, que esta admirável mulher, e muito cristã por sinal, tenha alcançado o tipo de consciência cósmica que aqui estamos a discutir. Também marcada, como Pascal e Nietzsche, pelo viés do sofrimento. Mas diga-se de passagem, um tipo de sofrimento elaborado, que o grosso da humanidade não pode sentir. Creio que este seria o tipo de coisa rizível àqueles que nunca passaram por. Há um certo ar ressentido nesta fala, mas não se encontra isto em Lispector, muito em Nietzsche.

Lóri não sabia explicar por que, mas achava que os animais entravam com mais freqüência na graça de existir do que os humanos. Só que aqueles não sabiam, e os humanos percebiam. Os humanos tinham obstáculos que não dificultavam a vida dos animais, como raciocínio, lógica, compreensão. Enquanto que os animais tinham esplendidez daquilo que é direto e se dirige direto.O Deus sabia o que fazia: Lóri achava que estava certo o estado de graça não nos ser dado freqüentemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para o “outro lado” da vida, que esse outro lado também era real mas ninguém nos entenderia jamais: perderíamos a linguagem em comum.Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se era muito feliz. E habituar-se à felicidade, seria um perigo social. Ficaríamos mais egoístas, porque as pessoas felizes o eram, menos sensíveis à dor humana, não sentiríamos a necessidade de procurar ajudar os que precisavam – tudo por termos na graça a compreensão e o resumo da vida.Não, nem que dependesse de Lóri, ela não quereria ter com muita freqüência o estado de graça. Seria como cair num vício, iria atraí-la como um vício, ela se tornaria contemplativa como os tomadores de ópio. E se aparecesse mais a miúdo, Lóri tinha certeza de que abusaria: passaria a querer viver permanentemente em graça. E isto representaria uma fuga imperdoável ao destino humano, que era feito de luta e sofrimento e perplexidade e alegrias.Também era bom que o estado de graça demorasse poucos momentos. Se durasse mais, ela bem sabia, ela que conhecia suas ambições quase infantis terminaria tentando entrar nos mistérios da Natureza. No que ela tentasse, aliás, tinha a certeza de que a graça desapareceria. Pois a graça era uma dádiva e, se nada exigia, se desvaneceria se passássemos a exigir dela uma resposta. Era preciso não esquecer que o estado de graça era apenas uma pequena abertura para o mundo que era uma espécie de paraíso – mas não era uma entrada nele, nem dava o direito de se comer dos frutos de seus pomares. Lóri saiu do estado de graça com o rosto liso, os olhos abertos e pensativos e, embora não tivesse sorrido, era como se o corpo todo acabasse de sair de um sorriso suave. E saíra melhor criatura do que entrara. Havia experimentado alguma coisa que parecia redimir a condição humana, embora ao mesmo tempo ficassem acentuados os estreitos limites desta condição. E exatamente porque depois da graça a condição humana se revelava na sua pobreza implorante, aprendia-se a amar mais, a esperar mais. Passava-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis. Havia dias que eram tão áridos e desérticos que ela daria anos de sua vida em troca de uns minutos de graça.

Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça. Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte.O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia. Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irradiava de pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava de leve porque na graça tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.E havia uma bem-aventurança física que a nada se comparava. O corpo se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.Nem de longe Lóri podia imaginar o que devia ser o estado de graça dos santos. Aquele estado ela jamais conhecera e nem sequer conseguia adivinhá-lo. O que lhe acontecia era apenas o estado de graça de uma pessoa comum que de súbito se torna real, porque é comum e humana e reconhecível e tem olhos e ouvidos para ver e ouvir.As descobertas naquele estado eram indizíveis e incomunicáveis. Ela se manteve sentada, quieta, silenciosa. Era como uma anunciação. Não sendo porém precedida pelos anjos que, supunha ela, antecediam a graça dos santos. Mas era como se o anjo da vida viesse anunciar-lhe o mundo. Depois lentamente saiu daquela situação. Não como se tivesse estado em transe – não houvera nenhum transe – saía-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este o é. Também já era um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra e o céu, queria-se mais e mais. Mas era inútil desejar: só vinha espontaneamente."

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

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Anonymous Anônimo said...

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Anonymous Anônimo said...

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5:19 AM  

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